sábado, novembro 15

dos bitaites sobre as coisas #1

Desde pequenina que oiço falar de guerra e desde pequenina que tenho medo dela. Não é propriamente como acordar cedo ou aprender a gostar de grelos, que a dada altura já te habituaste e nem deste por isso acontecer apesar de teimares que não gostas e não consegues. Não é por sempre ter ouvido falar de guerra que convivo pacificamente com a sua existência, bem pelo contrário. Até me sinto à partida intimidada por pessoas que tenham esta palavra como apelido, quando não as conheço. A própria palavra dá-me medo, torna-me hesitante e transporta-me temporalmente sempre para os meus 5/7 anos de idade, onde facilmente temos medo, à partida, de tudo o que desconhecemos. O que me assusta no meio de tudo o que oiço, de todas as notícias com que sou bombardeada todos os dias mesmo que não queira saber - para além das vítimas que faz - é o entendimento que as gerações que a vivem repetidamente têm sobre ela: quase como que uma rotina, que acontece de tempo a tempo, que não se pode mudar mesmo que se queira muito e se trabalhe para isso, algo inevitável por existirem vontades e poderes maiores que a vontade da paz. Assusta-me e mete-me medo que, à partida, alguém nasça e morra sem ter a ideia que poderá haver um mundo em que esses confrontos não tomem primordial importância nas suas vidas, em que possa haver um natural desenrolar de acontecimentos sociais sem que estes flagelos que hoje assistimos ditem um fim mais ou menos distante à vida dos que amamos e à nossa própria. Não consigo acreditar em Deus por muito que me esforce, mas acredito e consigo entender a fé: fé nas pessoas, nos pensamentos, nas ideias que definem os grandes movimentos humanos, e por muito que goste e teime em relativizar os fenómenos sociais com que me vou deparando durante a minha estadia por cá, não consigo contextualizar uma prática que inibe uma sociedade de desenvolver outros estilos de vida e de expressão que não o dominante, pior: uma prática que, de tão aterradora que é, nem permite que quem a estranhe sonhe, imagine, deseje outra vida. A meu ver, isto acontece quando a fé no poder e nas consequências que advêm destes confrontos supera a própria fé que motivou o início de toda esta guerra, a fé em Deus, seja ele qual for. Deus é então uma desculpa esfarrapada, um pretexto esquecido, ao mesmo nível daquela mentira que pregamos sempre aos senhores que estão arrumar os carros ao pé do Estádio do Benfica "não tenho aqui nada, mas quando voltar do supermercado dou-lhe qualquer coisa!" Nunca damos. No meio das minhas singelas opiniões dou por mim a estar amedrontada (e ter estado sempre) com algo que não me atinge directamente... tomara se atingisse. Afinal assisto a tudo isto através de uma tela, de um papel, de voz que me conta o que se passa para lá da minha fronteirazinha, bem como toda a jornalada super iluminada sobre estes acontecimentos e outros trinta, sempre cheia de soluções e remédios para todos os males da humanidade: por muito aterradores que sejam, a jornalada super sónica e experiente sabe sempre que está a dizer. Mas pronto, a jornalada não é aqui assunto agora. Também não posso dizer que o assunto seja só a guerra: a guerra e o medo, talvez. Não sei, acho que preciso de falar sobre isto para não me sentir uma tolinha idiota cada vez que se fala no assunto, pois a única coisa que consigo de imediato dizer é: tenho medo. Muito. Enquanto miúda branca de classe média altamente privilegiada com a minha vida, é a única coisa que consigo dizer. Tenho medo de olhar nos olhos alguém cuja expressão de indiferença não se altere, mesmo que o cenário melhore; tenho medo que a nossa casa seja dominada por rostos que já não consigam sentir mais o que é não ter uma visão alternativa. Assusta-me tanto ser governada pelos fanáticos da guerra como pelas suas vítimas. Acho que volto e voltarei sempre ao mesmo assunto sem conseguir dizer mais nada: tenho medo.

sexta-feira, julho 18

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.


Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.


Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.


E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.

segunda-feira, julho 14

segunda-feira, abril 14

domingo, abril 13


i'm always stuck in my own world



terça-feira, abril 8


Sem ti
serei eternamente um rochedo gélido e mortífero, procurando
refúgio em infinitos ninhos de colibris e
outros pássaros-maravilha,
que matarei consecutivamente com as
minhas pontas afiadas
e revoltas,
sem noção alguma que sempre lhes serei um perigo; esses pássaros indefesos iram sempre
voar na minha direcção, buscando os
brilhantes reflexos das minhas lâminas,
fitando uma morte que não conhecem e que nem julgam existir porque
são pássaros, como eu fui um dia.

Quero esses pássaros por querer a juventude
fresca
ingénua
tola, inocente, causal, efémera, translúcida
que perdi um dia sem
sequer entender que as lâminas eram as tuas, e as pontas
aguçadas me desfiavam o rosto e me tornariam,
irreparavelmente,
num rochedo como tu.

quarta-feira, abril 2

terça-feira, abril 1

domingo, março 30



Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta. Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima - eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim te procuram. 
Quando as
folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a
primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios,
sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milgares
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
que te procuram. 

sábado, março 22

domingo, março 9






Encontra-me, por favor.

quarta-feira, janeiro 1

fosse o teu regresso um

furacão, revolto sonho ébrio

dos meus dias mortos.


eu a tua âncora, cruel detentora

das tuas suaves asas.

domingo, dezembro 15


De todos os recomeços, este é o que me dói mais. 
Dói-me saber que existe uma história da qual já não me lembro bem, da qual só a minha pele e o meu corpo guardam breves memórias que estou a descobrir aos poucos, ainda envoltas em névoa. Dói-me ainda mais saber que a causa desse desfoco foi o meu coração cansado de dar de si, já exausto do peso dos dias e das noites solitárias, a escolher não lembrar. Não me dói, mas cansa-me saber que de todas as pragas do mundo, a mim me calhou a de ter um coração fraco. Fraco para se adaptar a novas situações, novas pessoas e novos cheiros, novos costumes e novos gestos, estando sempre a saudar aquilo que já não vivo mais. Entendo agora que em todos os recomeços morremos sempre um bocadinho, mas desta vez não sei que parte de mim ficou para trás. Este é o recomeço que me dói mais, mas é um recomeço. Acho que continuo a brindar a estes momentos por existir sempre a possibilidade de acontecer algo novo, alguma sensação ainda por explorar, alguma esperança em que tudo mude e eu me mostre diferente, com cara lavada e roupa fresca, esquecendo-me que não foi para essas novidades que fui talhada. Para isso gosto de usar da inconsciência como se a conhecesse pela primeira vez.
Saúde.