Desde pequenina que oiço falar de guerra e desde pequenina que tenho medo dela. Não é propriamente como acordar cedo ou aprender a gostar de grelos, que a dada altura já te habituaste e nem deste por isso acontecer apesar de teimares que não gostas e não consegues. Não é por sempre ter ouvido falar de guerra que convivo pacificamente com a sua existência, bem pelo contrário. Até me sinto à partida intimidada por pessoas que tenham esta palavra como apelido, quando não as conheço. A própria palavra dá-me medo, torna-me hesitante e transporta-me temporalmente sempre para os meus 5/7 anos de idade, onde facilmente temos medo, à partida, de tudo o que desconhecemos. O que me assusta no meio de tudo o que oiço, de todas as notícias com que sou bombardeada todos os dias mesmo que não queira saber - para além das vítimas que faz - é o entendimento que as gerações que a vivem repetidamente têm sobre ela: quase como que uma rotina, que acontece de tempo a tempo, que não se pode mudar mesmo que se queira muito e se trabalhe para isso, algo inevitável por existirem vontades e poderes maiores que a vontade da paz. Assusta-me e mete-me medo que, à partida, alguém nasça e morra sem ter a ideia que poderá haver um mundo em que esses confrontos não tomem primordial importância nas suas vidas, em que possa haver um natural desenrolar de acontecimentos sociais sem que estes flagelos que hoje assistimos ditem um fim mais ou menos distante à vida dos que amamos e à nossa própria. Não consigo acreditar em Deus por muito que me esforce, mas acredito e consigo entender a fé: fé nas pessoas, nos pensamentos, nas ideias que definem os grandes movimentos humanos, e por muito que goste e teime em relativizar os fenómenos sociais com que me vou deparando durante a minha estadia por cá, não consigo contextualizar uma prática que inibe uma sociedade de desenvolver outros estilos de vida e de expressão que não o dominante, pior: uma prática que, de tão aterradora que é, nem permite que quem a estranhe sonhe, imagine, deseje outra vida. A meu ver, isto acontece quando a fé no poder e nas consequências que advêm destes confrontos supera a própria fé que motivou o início de toda esta guerra, a fé em Deus, seja ele qual for. Deus é então uma desculpa esfarrapada, um pretexto esquecido, ao mesmo nível daquela mentira que pregamos sempre aos senhores que estão arrumar os carros ao pé do Estádio do Benfica "não tenho aqui nada, mas quando voltar do supermercado dou-lhe qualquer coisa!" Nunca damos. No meio das minhas singelas opiniões dou por mim a estar amedrontada (e ter estado sempre) com algo que não me atinge directamente... tomara se atingisse. Afinal assisto a tudo isto através de uma tela, de um papel, de voz que me conta o que se passa para lá da minha fronteirazinha, bem como toda a jornalada super iluminada sobre estes acontecimentos e outros trinta, sempre cheia de soluções e remédios para todos os males da humanidade: por muito aterradores que sejam, a jornalada super sónica e experiente sabe sempre que está a dizer. Mas pronto, a jornalada não é aqui assunto agora. Também não posso dizer que o assunto seja só a guerra: a guerra e o medo, talvez. Não sei, acho que preciso de falar sobre isto para não me sentir uma tolinha idiota cada vez que se fala no assunto, pois a única coisa que consigo de imediato dizer é: tenho medo. Muito. Enquanto miúda branca de classe média altamente privilegiada com a minha vida, é a única coisa que consigo dizer. Tenho medo de olhar nos olhos alguém cuja expressão de indiferença não se altere, mesmo que o cenário melhore; tenho medo que a nossa casa seja dominada por rostos que já não consigam sentir mais o que é não ter uma visão alternativa. Assusta-me tanto ser governada pelos fanáticos da guerra como pelas suas vítimas. Acho que volto e voltarei sempre ao mesmo assunto sem conseguir dizer mais nada: tenho medo.
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