domingo, dezembro 15


De todos os recomeços, este é o que me dói mais. 
Dói-me saber que existe uma história da qual já não me lembro bem, da qual só a minha pele e o meu corpo guardam breves memórias que estou a descobrir aos poucos, ainda envoltas em névoa. Dói-me ainda mais saber que a causa desse desfoco foi o meu coração cansado de dar de si, já exausto do peso dos dias e das noites solitárias, a escolher não lembrar. Não me dói, mas cansa-me saber que de todas as pragas do mundo, a mim me calhou a de ter um coração fraco. Fraco para se adaptar a novas situações, novas pessoas e novos cheiros, novos costumes e novos gestos, estando sempre a saudar aquilo que já não vivo mais. Entendo agora que em todos os recomeços morremos sempre um bocadinho, mas desta vez não sei que parte de mim ficou para trás. Este é o recomeço que me dói mais, mas é um recomeço. Acho que continuo a brindar a estes momentos por existir sempre a possibilidade de acontecer algo novo, alguma sensação ainda por explorar, alguma esperança em que tudo mude e eu me mostre diferente, com cara lavada e roupa fresca, esquecendo-me que não foi para essas novidades que fui talhada. Para isso gosto de usar da inconsciência como se a conhecesse pela primeira vez.
Saúde.


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